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Você não quer ser autêntico, você quer pertencer com estilo

  • Foto do escritor: Éverton Tadeu
    Éverton Tadeu
  • 18 de mai.
  • 8 min de leitura

Quiet luxury, mob wife, blokecore, Labubu, a autenticidade que vem com manual de instruções. Existe uma ironia linda no centro da cultura de moda contemporânea.


Nunca se falou tanto de autenticidade. Nunca se vendeu tanto a ideia de que você deve ser você mesmo, encontrar seu estilo próprio, se vestir de acordo com sua essência, expressar sua individualidade. Os criadores de conteúdo falam nisso. Os consultores de imagem falam nisso. As marcas falam nisso. Os algoritmos entregam isso. Todo mundo, ao mesmo tempo, se convenceu de que está numa jornada única de autodescoberta estética.


E, ao mesmo tempo, nunca fomos tão sincronizados.


Uma semana é clean girl. Na outra, old money. Depois vêm quiet luxury, mob wife, westerncore, boho chic revisitado, blokecore, Y2K revival, cottagecore, athleisure acadêmico e, o mais recente símbolo da nossa coletiva perda de referência estética, o Labubu. De repente, todo mundo compra a mesma peça, usa a mesma referência, tira a mesma foto, faz a mesma pose e ainda chama isso de autenticidade.

É a autenticidade que vem com manual de instruções, tutorial no YouTube e lista de produtos na bio.


A aceleração que ninguém pediu


Para entender o absurdo do momento atual, é útil entender como os ciclos de moda funcionaram historicamente.


Durante décadas, o modelo dominante era o que o sociólogo alemão Georg Simmel descreveu já em 1904 no ensaio Fashion: a moda funciona como um mecanismo de diferenciação e imitação simultâneas. Os grupos de maior status adotam um estilo. Os grupos inferiores imitam. Quando a imitação chega em massa, o grupo original abandona o estilo e inventa outro. E o ciclo recomeça.

Era lento. Levava anos. Às vezes, décadas.


O que o TikTok fez foi transformar esse ciclo em algo que nem o próprio Simmel conseguiria nomear com elegância. Pesquisadores de comportamento de consumo têm documentado a compressão dos ciclos de tendência desde a ascensão das redes sociais de vídeo curto. O que antes levava de três a cinco anos para ir do desfile ao mainstream e ao descarte, hoje percorre esse caminho em semanas. Às vezes em dias.


O resultado é uma proliferação caótica de microestéticas que surgem, escalam, saturam e morrem antes que a maioria das pessoas tenha processado o que estava acontecendo. A plataforma nomeia. O algoritmo distribui. As marcas replicam. O consumidor compra. A tendência morre. Repete.


E no centro desse ciclo frenético, existe uma palavra que todo mundo usa como se fosse um antídoto: autenticidade.


Quiet luxury, mob wife, blokecore: o glossário da falsa individualidade


Vale a pena olhar para algumas dessas estéticas com atenção, não para zombar de quem as adota, mas para entender o que elas revelam sobre o nosso tempo.

Quiet luxury chegou como uma reação à logomania e ao consumo ostensivo. A ideia era elegância sem marca aparente, sofisticação discreta, o tipo de riqueza que não precisa se provar. A referência visual era diretamente o guarda-roupa dos personagens de Succession, série da HBO, especialmente o estilo da personagem Siobhan Roy. Tons neutros, alfaiataria impecável, nada de barulho.


O problema? Em poucos meses, quiet luxury estava em todo lugar. Com tutorial, com lista de peças acessíveis para replicar o look, com versões fast fashion no Shein e na Zara. O conceito que supostamente comunicava que você não precisava gritar seu status estava sendo gritado em todos os canais.


A ironia é quase cirúrgica.


Mob wife veio na sequência como a resposta maximalist. Casacos de pelo, joias pesadas, make intensa, referências à estética das esposas da máfia ítalo-americana dos anos 80 e 90, misturadas com uma nostalgia coletiva por Sopranos e Goodfellas. Era exatamente o oposto do quiet luxury. E apareceu exatamente dois meses depois.


Fonte: Pinterest
Fonte: Pinterest

O que isso nos diz? Que a estética não era a questão. A questão era a próxima coisa para se identificar.


Blokecore é particularmente revelador. A estética surgiu do streetwear britânico e da cultura de arquibancada de futebol: camisas de time, jaquetas retrô de torcedor, referências ao operariado urbano inglês dos anos 90. Em tese, era a estetização de uma cultura de classe trabalhadora real, com raízes em comunidades específicas, história e significado social.


A forma como foi adotada globalmente, majoritariamente por jovens urbanos sem qualquer relação com essa cultura, é o exemplo mais claro de como uma estética pode ser completamente esvaziada de contexto e transformada em fantasia de fim de semana.


Seria desonesto não mencionar: enquanto você lê isso, uma nova onda já está se formando. A obsessão coletiva com Carolyn Bessette-Kennedy e o seu visual em Love Story chegou para nos lembrar que a roda não para. De repente, todo mundo quer o slip dress dos anos 90, o coque despenteado, o casaco oversized, o minimalismo gelado de quem parecia não se esforçar para nada. Uma mulher que morreu há mais de duas décadas virou referência estética da semana porque um documentário chegou numa plataforma de streaming e o algoritmo fez o resto.


Fonte: Pinterest
Fonte: Pinterest

Carolyn era fascinante. O estilo dela era genuinamente elegante. Mas há algo profundamente revelador no fato de que a próxima identidade pronta para consumo veio embalada numa história de tragédia real. Porque no ciclo das trends, aparentemente, nem o luto tem prazo de validade. Ele também vira estética.


Labubu: o caso clínico


Preciso falar sobre o Labubu (boneco horroroso).


O Labubu é um boneco produzido pela empresa chinesa Pop Mart, criado pelo artista hongkonguês Kasing Lung. É um personagem de aparência estranha: orelhas pontudas, dentes serrilhados, olhos grandes, expressão que oscila entre assustador e deliberadamente feio. Não é, para qualquer critério estético objetivo, um objeto de beleza. É um boneco que parece que foi desenhado para assombrar os sonhos de crianças de jardim de infância.


E virou um fenômeno de consumo global.


O modelo de negócios da Pop Mart é baseado em blind boxes: você compra uma caixa sem saber qual versão do boneco vai receber. É uma mecânica de jogo com viés de loteria, projetada para maximizar a repetição da compra e criar escassez percebida nas versões raras. A empresa abriu capital na bolsa de Hong Kong em 2020 e tem documentado crescimento expressivo de receita nos anos seguintes, sustentado em grande parte pela demanda de colecionadores.


Figuras raras do Labubu chegam a ser revendidas por valores que, dependendo da versão e do mercado, superam centenas ou milhares de dólares. A modelo e cantora Lisa, do grupo BLACKPINK, foi vista publicamente com o boneco, e o impacto na demanda foi imediato e documentado.


Tudo isso é factual. E tudo isso é absolutamente fascinante como estudo de comportamento do consumidor.


Mas vamos ser honestos: o que está sendo comprado não é arte. Não é beleza. Não é nem nostalgia de infância, como no caso de outras figuras colecionáveis com décadas de história.


O que está sendo comprado é pertencimento. É o sinal de que você está dentro de uma conversa. É o objeto que funciona como senha de entrada em uma tribo que, daqui a alguns meses, vai ter esquecido que o boneco existia e vai estar correndo atrás de outra coisa igualmente horrorosa e igualmente cara.


O Labubu não é uma aberração do mercado. É o mercado funcionando exatamente como foi projetado para funcionar: transformando ansiedade de pertencimento em compra compulsiva.


O que Georg Simmel não pôde prever


Simmel entendeu a moda como um mecanismo social de equilíbrio entre o desejo de pertencer e o desejo de se diferenciar. Pierre Bourdieu, décadas depois, aprofundou o tema ao analisar como o gosto funciona como capital cultural, como o que consumimos sinaliza nossa posição social e nossas afiliações de classe.


Mas nenhum deles poderia ter antecipado um cenário em que a diferenciação e a conformidade acontecem simultaneamente, na mesma plataforma, para o mesmo público, em tempo real.


O que as microestéticas do TikTok fazem é algo peculiar: elas criam a sensação de pertencer a um grupo pequeno e específico (eu sou do grupo quiet luxury, não do grupo mob wife) enquanto esse grupo tem, na verdade, dezenas de milhões de membros fazendo exatamente a mesma coisa.


É a ilusão perfeita de individualidade em escala industrial.


E funciona porque responde a uma necessidade real. Pertencimento não é fraqueza. É uma necessidade humana documentada, estudada e fundamental. O problema não é querer pertencer. O problema é confundir pertencimento com identidade. E é exatamente essa confusão que a indústria da tendência explora com precisão e sem constrangimento.


Autenticidade como produto


A palavra autenticidade foi sequestrada.


Ela foi capturada pelo marketing e transformada em argumento de venda. As marcas falam em autenticidade. Os influenciadores falam em autenticidade. As plataformas entregam conteúdo sobre autenticidade enquanto vendem exatamente o oposto: formatos, estéticas e linguagens padronizadas que se replicam até a saturação.


Existe até um nome para o fenômeno: commodity authenticity, autenticidade comoditizada. O conceito é estudado em marketing e descreve como a busca por experiências e produtos autênticos se tornou ela mesma um mercado, com suas próprias tendências, linguagens e produtos para consumir.


Em termos mais diretos: a autenticidade virou uma estética. Uma trend. Uma identidade para comprar.


E o resultado é que muita gente que acha que está fugindo do consumo de massa está, na verdade, consumindo a versão premium do consumo de massa.


A diferença entre repertório e identidade


Aqui é onde a conversa fica mais útil.


Nenhum ser humano desenvolve estilo num vácuo. Todo estilo é construído sobre repertório: referências visuais absorvidas ao longo do tempo, influências culturais, memórias afetivas, contexto social, experiências vividas. Você não inventa um estilo do nada. Você o constrói a partir de tudo que te formou.

E nesse sentido, absorver referências estéticas externas é completamente normal. Inclusive absorver tendências. A questão não é se você usa uma trend. A questão é de onde vem a decisão de usá-la.


Você está usando porque a estética conversa com algo que já existe em você? Por que ela amplifica uma parte da sua personalidade, da sua história, do seu corpo, dos seus valores? Por que ela representa uma escolha consciente de como você quer se comunicar visualmente com o mundo?


Ou você está usando porque apareceu no seu feed, porque todo mundo está usando, porque dá para tirar uma boa foto, e porque na semana que vem você vai abandonar tudo quando chegar a próxima?


A primeira é construção de identidade. A segunda é fantasia de aluguel.


E as duas têm consequências diferentes. A primeira acumula. A segunda dispersa. Um guarda-roupa construído com intenção ao longo do tempo comunica algo. Um guarda-roupa que muda completamente a cada três meses comunica apenas que você está sempre procurando alguma coisa e nunca encontrando.


O que isso tem a ver com imagem de verdade


Imagem pessoal não é sobre ficar de fora das tendências. É sobre saber o que fazer com elas.


Um profissional de imagem que nunca olha para o que está acontecendo no mercado é um consultor com data de validade. Repertório é fundamental. Atualização é necessária. Conhecer as tendências é parte do trabalho.


Mas o trabalho de verdade é outro: é ajudar a pessoa a entender o que ela quer comunicar, antes de falar sobre o que ela deve vestir. É olhar para a história, o contexto, a personalidade, o corpo, o campo de atuação, os valores e os objetivos de quem está à frente. E a partir daí, selecionar, adaptar e construir uma linguagem visual que seja coerente, durável e reconhecível.


Isso não cabe em nenhuma trend. Isso não tem nome de microestética. Isso não gera um tutorial de três minutos.


Mas é isso que diferencia uma pessoa com estilo de uma pessoa que está constantemente bem vestida da moda.


A pergunta que incomoda


Quando você tira a última tendência que comprou, você continua sendo você? Ou você fica sem nada para vestir?


Não é uma pergunta moral. É uma pergunta de diagnóstico.


A moda sempre foi uma linguagem coletiva. Sempre foi produto de tempo, cultura, mercado e política. Nunca foi totalmente individual e nunca precisou ser. Mas existe uma diferença entre usar a linguagem coletiva com vocabulário próprio e simplesmente repetir as frases que todo mundo está repetindo.


A autenticidade não é uma estética. Não é um conjunto de peças. Não é um boneco feio comprado por uma fortuna para ser fotografado na bolsa.


É, no máximo, uma prática. Lenta, construída, às vezes inconveniente. O tipo de coisa que não cabe no formato de um carrossel de dez slides.


E talvez seja exatamente por isso que a versão falsa vende tanto melhor.


Se você está cansado de trocar de identidade a cada três meses e quer construir uma imagem que dure mais do que um ciclo de trend, o trabalho começa aqui.


Love,

Ev


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